Símbolo de luta: quem foi Margarida Alves e por que sindicalista é homenageada no Dia dos Direitos Humanos

Data da postagem: 12/08/2025

Primeira mulher a ocupar a presidência de um sindicato rural, ela foi assassinada há 42 anos

12.AGO.2025 ÀS 11H59 ANA CAROLINA VASCONCELOS E LUCAS SALUM


Margarida Maria Alves

Trajetória de Margarida Alves foi marcada pela defesa intransigente dos direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras do campo - Foto: Arquivo/ Contag





Primeira mulher a ocupar a presidência de um sindicato rural, com uma trajetória marcada pela defesa intransigente dos direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras do campo, Margarida Maria Alves foi brutalmente assassinada há 42 anos, no dia 12 de agosto 1983, em Alagoa Grande, na Paraíba, onde também nasceu e desenvolveu sua atuação política e sindical. 

Inspirada no método e nas ideias de Paulo Freire, ela também foi responsável pela alfabetização e formação de diversos camponeses. Foi também expoente na defesa dos direitos das mulheres e da juventude, abrindo portas para que estes viessem a ocupar espaços de poder. Foi justamente pelo papel cumprido por Margarida que ela foi executada a tiros em frente a sua casa, na presença do marido e do filho. 

Mas seu legado segue vivo e inspira milhares de lutadores e lutadoras. Desde 2012, 12 de agosto é o Dia Nacional dos Direitos Humanos e uma das maiores e mais tradicionais mobilizações da classe trabalhadora brasileira leva o seu nome, a Marcha das Margaridas. 

Em entrevista ao Conversa Bem Viver, a sindicalista Melissa Vieira, secretária de mulheres trabalhadoras rurais da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), explica a importância de Margarida Alves e de sua história de luta. 

“Margarida Alves foi assassinada por defender a vida, por defender o homem e a mulher do campo. Era mulher, mãe e sindicalista, que fez grandes batalhas contra os latifundiários e conquistou grandes avanços”, relembra. 

Vieira também discute sobre as potencialidades e desafios da organização sindical no campo e avalia a postura do terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em relação às pautas dos trabalhadores rurais. 

“E eu acho que Margarida Alves diria para o presidente Lula que avançamos, mas precisamos avançar mais. Porque precisamos de mais gente com terra e com qualidade de vida no campo, porque somos nós que produzimos e temos condições de tirar o Brasil de vez da fome”, destaca.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato: Quem foi Margarida Alves?

Melissa Vieira: Foi uma grande mulher que inspirou outras mulheres a estarem nos espaços de poder e de decisão, por ser a primeira mulher presidenta de um sindicato de trabalhadores rurais no Brasil.

Era mulher, mãe e sindicalista, que fez grandes batalhas contra os latifundiários, em Alagoa Grande, que defendeu a mulher e o homem do campo e conquistou grandes avanços.

Ela quebrou as barreiras de que o sindicato não é um lugar para mulheres. Eu, quando entrei no movimento sindical, ouvia muito falar de Margarida Alves e de sua história, sobre o quanto ela fez pelos assalariados rurais e na luta contra o trabalho escravo.

Ela também esteve muito presente na luta pela participação das mulheres e da juventude no campo e nas políticas públicas. Sempre esteve à frente nos palanques fazendo luta pela população do campo, das águas e das florestas.

Como foi fundada a Marcha das Margaridas, no ano 2000, 17 anos após o assassinato de Margarida Alves?

A luta de Margarida Alves também inspirou as mulheres da Contag. Ela era presidente do sindicato, mas muitas vezes o movimento sindical não era um lugar pensado para as mulheres. Ficamos um grande período sem ter uma mulher como secretária de mulheres na Contag, por exemplo.

Com a luta e a inspiração daquelas que vieram antes, foram feitos vários diálogos sobre a importância de ter uma marcha que lutasse pelos direitos das mulheres do campo, das águas e das florestas. E a inspiração em Margarida Alves vem justamente por ser a primeira mulher a presidir o sindicato.

Além da inspiração, é também momento de demonstrar que Margarida Alves foi assassinada por defender a vida, por defender o homem e a mulher do campo. Então, ao mesmo tempo, foi como uma inspiração, mas também foi como luta, pautando que os assassinos de Margarida Maria Alves fossem presos.

Nós conhecemos a nossa história e sabemos que muitos de nós — sindicalistas, militantes de movimentos sociais, defensores dos direitos humanos e defensores do meio ambiente — são assassinados na luta, mas os responsáveis não são descobertos. Temos o exemplo da própria companheira Marielle Franco também. Os culpados ficam impunes.

Então, a marcha também era um momento de denúncia dos mandantes do crime que matou Margarida Alves.

A política anti-sindical também cresceu muito nos últimos anos, desde o golpe de 2016. Existe uma narrativa de que o sindicato não serve para nada e isso tem inclusive chegado ao campo e influenciado os nossos trabalhadores e trabalhadoras. Precisamos desmistificar essa ideia, porque o sindicato é um espaço de direito e de luta, como fazia Margarida Alves. 

Quais são as dificuldades e potencialidades atuais para mobilizar os trabalhadores e trabalhadoras do campo?

Eu vou começar falando sobre as potencialidades, com o exemplo do sistema Contag. Temos mais 61 anos de história, marcados por grandes mobilizações. É um sistema que reúne 27 federações e os sindicatos. 

Uma dessas grandes mobilizações é o Grito da Terra Brasil, que mobiliza milhares de pessoas nas ruas de Brasília. Nós também temos os festivais nacionais de juventude, que discutem, por exemplo, a questão da sucessão rural, além da nossa grandiosa Marcha das Margaridas, que acontece a cada quatro anos e, em 2023, teve a sua sétima edição.

Essas mobilizações constroem narrativas para que as pessoas vejam a potencialidade do movimento sindical, que não é só sobre o trabalho de base, mas também é reivindicação de políticas públicas, como o [Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar] Pronaf, o crédito fundiário, o direito à terra e a reforma agrária.

Nossas mobilizações sempre foram reivindicatórias. Sempre dizemos porque marchamos, vamos até a Esplanada dos Ministérios, sentamos com ministros e com os presidentes. É para reivindicar acesso às políticas públicas e dignidade no campo, com escola, saúde e sustentabilidade, de forma que a gente possa viver no campo com todos os direitos que são nossos.

É muito desafiador falar hoje, por exemplo, de permanência e de sucessão rural. Mas não tem como falar sobre sindicalismo no campo sem falar de sucessão rural, porque sabemos que o campo está envelhecendo e muitos dos nossos buscam fazer faculdade, por exemplo, e nem sempre há incentivo da família. Pelo contrário, os pais querem que os filhos tenham um estudo, mas muitas vezes políticas públicas não chegam na ponta. A faculdade não chega no assentamento. A saúde não chega no assentamento. 

Muitas vezes, essas áreas rurais ficam a 70 ou 80 quilômetros de distância da cidade e o jovem precisa se deslocar várias vezes para poder fazer a sua faculdade. Temos o desafio de conseguir que as políticas públicas cheguem na ponta e o sindicato é quem reivindica essas políticas públicas. 

Infelizmente, com o movimento do “agropop, agrotudo”, nossos jovens, e até mesmo os mais velhos, que são agricultores familiares, se veem como parte do agronegócio, como grandes latifundiários. E isso faz parte de um projeto político. É muito desafiador hoje fazer e ser sindicalista no Brasil.

Mas, ao mesmo tempo, enquanto uma mulher jovem, de 25 anos, sendo a primeira mulher jovem a assumir a secretaria de mulheres da Contag, eu vejo a luz no fim do túnel. Eu nasci no berço do movimento sindical, da agricultura familiar, ouvindo falar de Margarida Alves. Eu acredito muito que não é impossível fazer o sindicalismo no Brasil. 

É difícil, mas não é impossível, porque a luta continua e as políticas públicas precisam acontecer. Precisamos ter dignidade no campo e, se a gente não fizer sindicalismo, não vai ter quem lute por esses direitos. Se não nos organizarmos, nós perdemos. Isso ficou muito claro na gestão de Jair Bolsonaro (PL), quando perdemos várias políticas porque estávamos desorganizados, mesmo tendo feito a maior Marcha das Margaridas. 

Lutando, a gente avançou. Se esquecemos que só avançamos quando estamos juntos, nos enfraquecemos. É melhor morrer na luta do que morrer de fome, como dizia Margarida Alves. Mesmo com os desafios, lembramos das potencialidades e que somos nós que levamos 100 mil mulheres às ruas de Brasília lutando pelo direito de ter acesso à água, à terra, de poder plantar, de poder comercializar a sua produção.

Como você avalia o terceiro governo Lula (PT) em relação às demandas das trabalhadoras rurais? O que você acha que Margarida Alves diria ao presidente?

O governo Lula tem um compromisso com as Margaridas e com as mulheres do campo, das águas e das florestas. Desde quando entregamos a pauta da Marcha das Margaridas de 2023, tivemos várias respostas.

Entre elas, podemos destacar os quintais produtivos, que estão sendo executados nos estados, com toda a dificuldade, mas estão acontecendo. Nós também tivemos a questão do Plano Safra, com várias respostas relacionadas com a nossa pauta. Então, nós estamos avançando. Também tem a documentação das trabalhadoras, que é uma ação também da Marcha das Margaridas. 

O governo tem, sim, o interesse de atender as Margaridas e nós também estamos tendo um diálogo muito bom com o Ministério das Mulheres. São respostas avançadas, e nós vamos continuar com as negociações, porque a marcha acaba, mas o processo de negociação da pauta continua.

Nós temos a Jornada das Margaridas, que acontece todos os anos, onde elaboramos uma nova pauta. Neste ano, novamente, sentaremos com o governo para analisar aquilo que foi e aquilo que ainda não foi atendido, e o que ainda pode ser atendido. Muitas das nossas pautas ainda vão ser atendidas. 

Nós entendemos que a questão orçamentária, hoje, no governo, tem sido muito desafiadora. Eu acho que Margarida Alves diria para o presidente Lula que avançamos, mas precisamos avançar mais. Porque precisamos de mais gente com terra e com qualidade de vida no campo, porque somos nós que produzimos e temos condições de tirar o Brasil de vez da fome.

O país sai do Mapa da Fome porque nós, agricultores e agricultoras familiares, colocamos a mão na terra, plantamos, colhemos e comercializamos.

Entendemos o problema orçamentário, mas não podemos ficar só nos problemas orçamentários. Precisamos avançar, porque, se nós queremos soberania alimentar e outros avanços, precisamos avançar em conjunto.

Também somos nós que mitigamos os efeitos das mudanças climáticas, que cuidamos da água e da terra. Queremos continuar no campo, mas queremos continuar com dignidade, com políticas públicas, com saneamento básico, com os nossos filhos e as nossas filhas com direito à educação.

Para isso, nós precisamos sempre andar juntos e eu tenho certeza que Lula tem um olhar para a agricultura familiar. Ele tem um olhar de alguém que já passou fome, que conhece a história do sindicalismo, das mulheres e do povo do campo, das águas e das florestas. 

Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio 


Por Brasil de Fato