Crônica nº14: O medo nunca me paralisou

Data da postagem: 06/10/2026

(Adalberto Pereira)

Sempre tive muito medo. Mas o medo, para mim, sempre foi um alerta. Nunca me paralisou.

Medo de bater o sino da igreja ao escurecer, no final do dia. Mas nunca deixei de cumprir ou atender à ordem da minha saudosa mãe, Maroca.

Medo de passar em frente ao cemitério já ao anoitecer. Não havia outra estrada; era por ali mesmo vindo de Teresina, na linha de ônibus, descia na Chapada Grande e seguia a pé, já ao escurecer, até chegar a Várzea Grande.

Medo de alma, medo de lobisomem — objeto das histórias contadas à noite, nas rodas de conversa, na casa da minha avó Dindinha. Aquelas histórias atrasavam um pouco o sono, mas nunca deixei de dormir.

Medo de ser chifrado pela vaca quando, aos cinco anos, percorria quatro quilômetros a pé para chegar à casa da minha avó Dindinha, na localidade Butitizinho. Nunca deixei de ir nos meus finais de semana, nem aceitei depender de outra pessoa para fazer aquele trajeto.

Medo de não tirar a nota mínima para passar de ano nos estudos. Minha preocupação era com o aprendizado, e não propriamente com a nota. Mas a nota era a regra estabelecida para medir o nosso desempenho,nuna fui reprovado.

Medo de me embriagar e não saber, no outro dia, o que havia aprontado. Não deixei de tomar meus goles, mas sempre procurei estar atento aos meus limites.

Medo do trovão e do relâmpago, que sempre anunciavam a chuva e a possibilidade de tempestades. Mesmo com medo, eu me desafiava a tomar banho de chuva ou a não parar, na roça, a capina que estava fazendo.

Medo de a menina recusar o meu chamado: “Vem dançar comigo!” Esse medo me fazia passar horas admirando o sanfoneiro puxar o fole, mas eu não desistia.

Medo de perder o emprego. Para isso, me preveni ingressando no serviço público por meio de concurso — uma conquista social fruto de muitas lutas, embora restrita àqueles que conseguiam chegar a esse espaço.

E assim fui aprendendo, ao longo da vida, que sentir medo não significa necessariamente recuar.

O medo pode ser um alerta. Pode nos fazer pensar, calcular os riscos, tomar cuidado. Mas também pode nos ensinar a enfrentar aquilo que parece maior do que nós.

Talvez seja essa uma das grandes lições que a vida me ensinou: não é a ausência do medo que nos faz seguir em frente. É a coragem de não permitir que ele decida por nós. Por isso, este relato também nos leva a uma reflexão sobre os tempos que vivemos.

Adalberto Pereira, extensionista rural e fundador do PT no Piauí

Por Marco Aurélio Siqueira