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Crônica nº 15: 1982 – A PROFECIA PREGADA NOS RINCÕES DO PIAUÍ
Data da postagem: 06/11/2026
Como costumo registrar, no calendário gregoriano, 1982 marca a partida institucional do Partido dos Trabalhadores (PT) em todos os estados brasileiros. Aqui, no Piauí, também fizemos a nossa parte. Coube a mim assumir a candidatura a deputado estadual. Não alimentava ilusões de que seria eleito. Tinha, porém, a certeza de que estava contribuindo para a organização do primeiro partido político brasileiro nascido das lutas sociais, construído pela base e formado pelo povo, em sua maioria gente que nunca havia participado diretamente da vida política. Destaco, nesse processo, a participação dos trabalhadores e trabalhadoras rurais, muitos deles vindos dos sindicatos e de suas próprias roças. Talvez por manterem certa autonomia em relação aos patrões, esses trabalhadores encontrassem melhores condições para enfrentar e resistir às pressões. Mesmo sem a posse da terra, tinham uma relação com o trabalho e com a organização sindical que lhes permitia reagir à repressão patronal. A opção pelo PT, naturalmente, provocava reações daqueles que sempre se acostumaram a mandar e decidir pelos outros. Eu já acumulava cinco anos de serviço público como extensionista rural da Emater e quatro transferências de município. Mesmo assim, topei o desafio. Afinal, a missão era maior do que qualquer receio individual. Aqui relato alguns episódios pitorescos, mas que revelam muito bem a reação da classe dominante diante do surgimento dessa nova forma de organização política. As regras eleitorais ainda carregavam as limitações impostas pela Ditadura Militar, que, mesmo em agonia, insistia em demonstrar força e controlar os espaços de participação política. Pelas regras eleitorais daquele período, não podíamos utilizar livremente a palavra na televisão. Nossa participação deveria se limitar à exibição de uma fotografia acompanhada de um áudio com a apresentação resumida do currículo do candidato. Diante daquele aparato de regras e limitações, resolvemos fazer diferente: gravamos nossa participação ao vivo, em vez de utilizar simplesmente a fotografia acompanhada do áudio previamente permitido. Não deu outra! Batemos pestana, mas o resultado foi imediato: ficou evidente que não se tratava de uma fotografia acompanhada de uma gravação. Fomos tirados do ar e ainda recebemos a devida punição. Era assim que a democracia começava a abrir suas portas: com regras, controles e algumas travas para quem ousasse falar além do permitido. Esse foi o lado mais duro e aventureiro da campanha: colocar o pé na estrada, percorrendo os rincões do Piauí, pregando a organização do Partido e o voto no 13, com o slogan: Terra, Trabalho e Liberdade! Nossa viagem era feita em um Fiat Uno emprestado pelo companheiro Manoel Meireles, também candidato. Seus afazeres como professor e empreendedor metalúrgico, entretanto, não permitiam que ele se ausentasse por mais de uma semana. Partimos de Teresina rumo ao município de Gilbués, localizado na bacia do rio Gurguéia, a mais de 800 quilômetros da capital. No percurso, naturalmente, fazíamos paradas em vários municípios, promovendo atos públicos nas feiras, nos sindicatos e nos espaços onde fosse possível reunir o povo. Mas, afinal, o que aconteceu no caminho? Vamos aos fatos! Ao nos aproximarmos de Bom Jesus, tínhamos que atravessar o rio Gurguéia por uma ponte móvel de madeira. Naquele período, o rio estava com o nível muito baixo. Um ônibus da linha Corrente–Teresina, que vinha à nossa frente, não utilizou a ponte: atravessou diretamente pelo leito do rio. Ao presenciar aquela cena, não tive dúvida. Entrei também com o Fiat Uno, seguindo o exemplo do ônibus. Só que a aventura não terminou como imaginávamos! Já no meio da travessia, a água começou a invadir a cabine do carro e a carroceria, onde transportávamos as redes de dormir, as bagagens, o megafone, o alto-falante e os santinhos de papel que distribuíamos nos eventos e que seriam utilizados no comício de Gilbués, nosso destino final. Não tive alternativa: precisei parar o veículo em plena correnteza. A água levou nossos santinhos, molhou as roupas, as redes e boa parte dos nossos pertences. Foi então que apareceram os responsáveis pela ponte, justamente aquela que deveríamos ter utilizado desde o início. Mas agora já era tarde! Tivemos que retirar o veículo no empurrão, até conseguir colocá-lo em terra firme. Depois de recolher os pertences, esperar um pouco para que as coisas secassem ao sol e reorganizar o que havia sobrado da bagagem, seguimos viagem. Afinal, tínhamos uma missão a cumprir: realizar o comício em Gilbués. Naquele município, o Partido concorria à prefeitura com a candidatura do senhor Paulo Mestre, um verdadeiro guerreiro, muito devoto a Deus e participante da Igreja Evangélica Assembleia de Deus, instituição que não via com bons olhos aquela sua ousadia política. Finalmente, o comício aconteceu! Isso graças ao técnico em eletrônica Soares, filho do senhor Paulo Mestre, que conseguiu recuperar o equipamento de som depois do nosso episódio fluvial. E foi durante aquele comício, realizado na praça central de Gilbués, que aconteceu uma das cenas mais emblemáticas daquela campanha. Um dos candidatos a vereador, bastante empolgado com a oportunidade de falar em público, resolveu dirigir-se ao seu antigo patrão, proprietário da terra onde havia trabalhado. De peito erguido, fez um desabafo que certamente não estava acostumado a fazer: — Olha, senhor, agora é o senhor quem tem que votar em mim! Já votei muito no senhor, mas agora eu tenho um partido. E o senhor é quem tem que votar em mim! Era a inversão de uma relação histórica de submissão. O trabalhador, que durante tantos anos havia sido chamado a obedecer e votar conforme a vontade do patrão, agora se apresentava como candidato, com partido, voz própria e coragem para reivindicar o voto daquele que antes decidia por ele. O proprietário da terra, que assistia a tudo de sua calçada, não suportou muito bem a ousadia. Teve um mal-estar, com princípio de enfarto, diante daquela cena inesperada. Talvez tenha sido a primeira vez que aquele trabalhador pôde dizer, publicamente, ao antigo patrão que os tempos começavam a mudar. Afinal, não estávamos apenas pedindo votos. Estávamos pregando uma profecia política nos rincões do Piauí: a de que o povo podia se organizar, escolher seus representantes e deixar de ser apenas espectador das decisões tomadas pelos poderosos. A liberdade sempre tem um preço. Mas há uma coisa que ninguém pode pagar no lugar de outro: a coragem de conquistá-la! Extensionista Rural e um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores no Piauí.Episódio 01 – Nossa participação na televisão
Episódio 02 – Pé na estrada, pregando a organização e o voto no 13
Adalberto Pereira
Por Marco Aurélio Siqueira