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‘Nem uma gota de petróleo’: como os ataques de Trump à Venezuela agravam a crise energética em Cuba
Data da postagem: 23/01/2026
Manifestantes seguram uma enorme bandeira cubana durante um protesto “Anti?Imperialista” em frente à Embaixada dos EUA, contra a incursão dos EUA na Venezuela, onde 32 soldados cubanos perderam a vida, em Havana, em 16 de janeiro de 2026. | Crédito: (Foto de YAMIL LAGE / AFP) Nas últimas duas semanas, Cuba voltou a ocupar um lugar central nas ameaças da Casa Branca, que, após seu ataque à Venezuela, assegurou que “nem uma gota a mais” do petróleo venezuelano chegaria à ilha. Desde então, as reiteradas ameaças de Washington tornaram-se constantes. O ataque contra Caracas colocou Cuba em uma situação de extrema dificuldade. Desde a chegada da Revolução Bolivariana, a Venezuela havia se tornado o principal parceiro econômico, político e diplomático da ilha caribenha. De fato, foi essa relação que, no início do século, permitiu a Cuba recuperar-se da violenta comoção do “período especial” e experimentar um novo tipo de inserção internacional após a queda do campo socialista europeu. Tanto é assim que, no início dos anos 2000, os então presidentes Hugo Chávez e Fidel Castro assinaram um convênio de caráter não mercantil, pelo qual a Venezuela passou a enviar petróleo a Cuba em troca do envio de uma série de profissionais — principalmente médicos e professores — com os quais a ilha colabora com o país sul-americano. Acossada pelo bloqueio dos Estados Unidos, essa relação foi, como nenhuma outra, determinante para a relativa estabilidade cubana. É por isso que o cerco militar e o enfraquecimento da Venezuela foram apresentados por Washington como a ante-sala de seu tão falado “golpe final” contra Havana, chegando a sugerir, em diversas ocasiões, que a Revolução Cubana “está prestes a cair”. A afirmação foi feita pelo próprio Trump, que recentemente confessou que Washington vem aplicando todas as medidas possíveis de pressão e dano contra a ilha, com exceção de uma invasão militar. “Não acho que se possa exercer muita mais pressão, a não ser entrar e destruir o lugar”, afirmou, em um acesso de brutal honestidade. Não é a primeira vez que Washington se apressa em prever o fim da Revolução Cubana. Já o fez diante de cada dificuldade enfrentada por Cuba, enquanto a estratégia norte-americana tem sido invariavelmente a mesma: aproveitar a situação para aprofundar o cerco e a asfixia econômica contra a ilha. Assim ocorreu após a queda do campo socialista e voltou a acontecer durante a pandemia de covid-19 — momento em que se bloqueou a aquisição de respiradores e seringas. Em ambas as ocasiões, o governo dos Estados Unidos intensificou o bloqueio com a intenção explícita de que, ao aumentar o sofrimento do povo cubano, a situação se tornasse tão insuportável que a Revolução caísse. Em meio a uma grave crise energética, os recorrentes cortes de energia — cada vez mais prolongados — tornaram-se parte de uma rotina diária e sufocante. A falta de combustível e de eletricidade não afeta apenas os lares, mas também degrada a capacidade produtiva de bens e serviços, o que resulta em uma espiral de dificuldades para a recuperação econômica do país. Desde o final do ano passado, o governo cubano já havia denunciado como um “ato de pirataria e terrorismo marítimo” os ataques militares que os Estados Unidos começaram a realizar contra diversos navios petroleiros que se dirigiam à ilha, vinculando essas ações à política de “máxima pressão e asfixia econômica” que a administração Trump vinha implementando contra Cuba. Uma agressão que — em grande medida — antecipava a atual ofensiva de Washington. Estima-se que, para um funcionamento estável — ainda que abaixo do necessário — Cuba consome atualmente cerca de 120.000 barris de petróleo por dia (bpd). Desse volume, apenas um terço provém da produção nacional, enquanto os dois terços restantes dependem de importações. Embora a importação de petróleo para Cuba esteja relativamente diversificada, com Venezuela, México, Rússia e outros países como principais fornecedores, o país opera abaixo de sua demanda, o que torna a estrutura energética altamente vulnerável a qualquer interrupção. Apesar de não haver dados oficiais completos, diversos estudos indicam que, em 2025, Caracas enviou à ilha entre 27 mil e 35 mil barris por dia, cerca de 30% do consumo diário cubano. Na atual situação de dificuldade que a ilha atravessa, a interrupção desse fluxo torna-se um problema vital para a segurança energética de Cuba. Ao mesmo tempo, trata-se de uma quantidade de petróleo difícil de substituir imediatamente devido à falta de divisas do país. Embora, nos últimos dois anos, Cuba tenha iniciado um acelerado processo de transição energética por meio da instalação de parques fotovoltaicos (energia renovável baseada na luz solar) com o objetivo de reduzir sua dependência externa, o fato é que se trata de uma transição difícil e custosa. Atualmente, estima-se que cerca de 90% da eletricidade na ilha ainda dependa do petróleo e seus derivados. A essa dificuldade soma-se ao fato de que, devido ao agressivo bloqueio que sofre, Cuba não pode acessar o mercado internacional em condições de “normalidade”. As empresas que comercializam com a ilha, assim como os fretes que transportam o petróleo — ou qualquer outro produto — estão submetidos a um regime de sanções por parte dos Estados Unidos, o que encarece de forma notável as importações necessárias. Dessa maneira, estima-se que Cuba tenha de pagar até três vezes mais que o preço internacional pelo petróleo que precisa importar. Sem grandes riquezas naturais, com uma extensão territorial que representa aproximadamente 1% da superfície dos Estados Unidos e com uma população trinta vezes menor que a da potência do norte, só uma propaganda vil e mal-intencionada pode sustentar que Cuba representa uma “ameaça à segurança dos Estados Unidos”, como costumam repetir os porta-vozes do Departamento de Estado estadunidense. Durante mais de seis décadas, Cuba teve que sobreviver ao cerco do bloqueio imposto pelos Estados Unidos, uma política cujo objetivo é asfixiar a vida cotidiana do povo na ilha. Jamais na história outra nação foi submetida por tanto tempo. Esse é o elevado preço que Cuba teve de pagar pelo “pecado” de escolher ser a artífice do seu próprio destino. Diante dessa situação, no próprio dia 3 de janeiro, após o ataque de Washington contra a Venezuela, o secretário de Estado, Marco Rubio — com tom irônico — afirmou que “se estivesse em Havana, estaria preocupado, ainda que fosse um pouco”. Dias depois, em uma de suas típicas mensagens de ameaça, Trump afirmou que Cuba deveria “negociar antes que seja tarde demais”. No entanto, Havana jamais se negou a dialogar com os Estados Unidos, algo que, de fato, faz cotidianamente em temas tão importantes quanto migração, luta contra o narcotráfico ou prevenção diante de eventos climáticos extremos. Enquanto os Estados Unidos mantêm uma política de guerra ativa contra a ilha, Cuba tem se recusado sistematicamente a aceitar que negociar implique em claudicação de sua soberania nacional. O próprio presidente cubano, Díaz-Canel, deixou isso claro recentemente, quando, na última sexta-feira (16), durante a Marcha do Povo Combatente realizada em homenagem aos 32 heróis cubanos caídos em combate, afirmou: “Não há rendição nem claudicação possível, nem qualquer tipo de entendimento sob a base da coerção ou intimidação. Cuba não precisa fazer nenhuma concessão política, nem isso jamais estará em uma mesa de negociações para um entendimento entre Cuba e os Estados Unidos. É importante que o entendam.” Acrescentando diante da multidão: “Sempre estaremos dispostos ao diálogo e à melhoria das relações entre os dois países, mas em igualdade de condições e sobre a base do respeito mútuo. Assim tem sido por mais de seis décadas; a história agora não será diferente.” Editado por: Nathallia FonsecaRelação com país latino foi determinante para a relativa estabilidade cubana

O cerco estadunidense e a crise energética

Resistência histórica e a postura de Cuba diante de Washington
Por Brasil de Fato