‘Ninguém vai falar de nós sem nós’: deputada comemora revogação de decreto que privatizaria rios Tapajós, Madeira e Tocantins

Data da postagem: 25/02/2026

Juliana Cardoso, presidenta da Comissão da Amazônia e dos Povos Originários, celebra vitória após 33 dias de mobilização


Mobilização indígena contra privatização dos rios Tapajós e Tocantins em Santarém (PA) iniciou em janeiro. Foto: Comunicação/Conselho Indígena Tapajós-Arapiuns (Cita)

Mobilização indígena contra privatização dos rios Tapajós e Tocantins em Santarém (PA) iniciou em janeiro | Crédito: Comunicação/Conselho Indígena Tapajós-Arapiuns (Cita)

O governo federal revogou nesta segunda-feira (23) o decreto número 12.600, que previa a inclusão de trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização. Com a decisão, ficam canceladas as obras de dragagem previstas na região amazônica. A medida foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) e representa uma vitória histórica dos povos indígenas e ribeirinhos que, há 33 dias, mobilizavam-se contra os impactos socioambientais do projeto e a falta de consulta prévia às comunidades.



Durante os protestos, manifestantes ocuparam o terminal portuário e o escritório da multinacional Cargill em Santarém, no Pará. O Conselho Indígena Tapajós Arapiuns, que representa 14 povos da região, celebrou a decisão com uma afirmação contundente: “Nossos rios não são mercadoria, são vida, cultura e futuro”.

“Eu acho que foi uma mobilização muito importante essa ocupação dos povos indígenas para que a gente conseguisse ter essa revogação e o quanto antes. Óbvio que foi possível também por conta de um governo democrático, de uma escuta democrática, de valorizar esse diálogo social junto com Guilherme Boulos e Sônia [Guajajara], que são dos ministérios representando o nosso governo Lula, e fazer uma correção da rota diante das reivindicações que são mais do que legítimas, avalia a deputada federal Juliana Cardoso (PT-SP), presidenta da Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais, no Conexão BdFda Rádio Brasil de Fato.

Ela ressaltou a coerência dessa ação com a política ambiental do governo. “Essa coerência vem com uma política ambiental, vem de uma reconstrução iniciada em 2023. E ela tem que ter uma escuta do governo, mas também tem que ter uma escuta da sociedade. Essa sociedade veio junto com os povos ribeirinhos e os povos indígenas, deu luz, deu voz, a imprensa também deu voz a isso para que a gente pudesse chegar nessa revogação do decreto.”


A justificativa do governo para realizar a dragagem era a ampliação do escoamento de produtos do agronegócio, como a soja, por meio de um corredor logístico estratégico para exportação. Cardoso explicou como esse modelo afeta diretamente a vida das comunidades tradicionais.


“Ela muda a configuração desses rios. A gente não está falando só da fauna, da flora, de peixes específicos da região. Quando você faz uma dragagem, quando você muda a rota de um rio, você violenta toda uma comunidade. Você tira inclusive os trabalhos tradicionais que existem naquela região, não só dos povos indígenas, mas também dos ribeirinhos em atuações econômicas de cooperativas.”

A deputada lembra a força do poder econômico de empresas como a Cargill por trás dessas obras. “Ela tem um poder aquisitivo financeiro e que acaba ultrapassando em cima da vida das pessoas. Nem tudo é lucro, nem tudo pode ser desse formato. A crise que nós estamos vivendo já demonstra isso”, pontuou.

Ela também criticou o equívoco de realizar o processo de concessão em ouvir os povos tradicionais e ribeirinhos, que, em última análise, são os mais impactados. “O governo infelizmente estava errando nesse sentido, com a participação do BNDES, e essa execução passava pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários sem o olhar de quem ali mora, de quem fala com os rios. E esses rios não só falam com aquele povo, eles também dialogam com o Brasil.”

Cardoso destacou a importância da Comissão da Amazônia e dos Povos Originários nesse processo. “A gente tem essa tarefa de estar acompanhando. Eu sou a presidenta, mas nós somos três presidentes, vice-presidentes que tão acompanhando já diretamente isso. Um é o deputado Airton Faleiro, que é do Pará, e a deputada Célia Xakriabá, que é de Minas, indígena como eu. A gente vai se dividindo para que a gente possa estar em todos os postos necessários.”

Ela lembrou a dimensão do que está em jogo. “A Amazônia concentra cerca de 20% da água doce superficial do planeta. Nós estamos falando de aproximadamente 25 milhões de pessoas que vivem na Amazônia Legal e de 400 povos indígenas que vivem na região amazônica. Você vê o poder que tem também esse setor e essa região, não só para esses povos, mas que ela também fala com todo o nosso Brasil e os nossos vizinhos.”

A deputada alertou que os interesses financeiros continuarão pressionando. “Os interesses financeiros são muito grandes e eles vão vir com tudo. Essa Câmara também tem muitos aliados para esse lugar de destruição. Nós já vimos isso passar aqui com o marco temporal. Mas a gente tem uma vitória que trouxe para dentro da Casa, mesmo que nós somos poucos, uma força necessária da mobilização que ficou para fora, nacional e internacionalmente.”

Ao final, Cardoso sintetizou a mensagem das 14 etnias que se uniram nesse levante contra a privatização dos rios. “O recado é: nada vai falar de nós sem nós. Esse é o recado. E não é só para o governo do presidente Lula, é para qualquer outro ator desse grande lucro, desde o Judiciário, desde qualquer lugar. Nada vai mais acontecer contra os povos indígenas que a gente não vai estar pronto para poder fazer a reivindicação necessária. Tudo que for conversado é conosco. Não é sem a gente, porque se for sem a gente, com certeza tem um levante nacional e internacional dos nossos povos.”

A revogação do decreto ainda será formalmente publicada, mas as comunidades já celebram a decisão. O governo também anunciou a criação de um grupo de trabalho interministerial para tratar das demandas de demarcação de terras na bacia do Tapajós, sinalizando que a luta dos povos originários segue em pauta e com vitórias concretas.



Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Maria Teresa Cruz






Por Condsef/Fenadsef