Crônica nº 3 - O Técnico "Enviado por Deus" e o Barro do Padre Sandro.

Data da postagem: 03/03/2026

Compartilho com vocês um capítulo da minha trajetória em Pimenteiras (1980), onde a solidariedade era vista como terrorismo e a transferência forçada era o preço da dignidade. Um relato sobre tempos difíceis, mas de muita fé no trabalho de base."

 

Cheguei a Pimenteiras em 1980, trazendo na bagagem os laços ainda pulsantes de São Raimundo Nonato. O horizonte era novo, mas os personagens pareciam saídos do mesmo roteiro de repressão. O gerente do escritório, meu ex-colega de São Raimundo, era o exemplo perfeito da ascensão pela omissão: galgou o cargo pela "neutralidade" conveniente diante da dura realidade que lutávamos para mudar.

Temendo que minha militância "contaminasse" a equipe, ele reuniu todos — sem a minha presença — para prescrever o comportamento ideal. A recomendação era clara: distância total do trabalho de base e "revolucionário" do pároco local, o italiano Padre Sandro.

Padre Sandro era uma figura que desafiava a lógica da elite Pimenteirense. Residindo em uma casa humilde na periferia da cidade, ele pregava o Jesus Cristo dos pobres e humilhados através de um trabalho popular de base. Corria na cidade uma história que definia sua essência: um homem muito pobre o procurou pedindo ajuda para construir a casa própria. Ao saber que o fiel estava na fase de fabricar os tijolos na olaria, o padre pediu que o aguardasse. No dia seguinte, para susto do homem que esperava dinheiro, Padre Sandro apareceu com pá e enxada em punho, oferecendo a própria mão de obra para bater o barro.

Foi esse "perigoso comunista" que fiz minha primeira visita...............................................................................................................................................................................................                                                                                                               

Este é o técnico enviado por Deus! — exclamou ao me receber. — Vejam como Deus está presente e tem os seus em todos os lugares. Seja bem-vindo, irmão.

No dia seguinte, a cena no escritório recém-instalado beirava o absurdo. Sem cadeiras suficientes, sentei-me no parapeito da janela e relatei minha visita à casa paroquial. O resultado foi um silêncio cortante. A maioria saiu da sala subitamente; os poucos que ficaram vaticinaram minha "loucura" por me envolver com alguém rotulado como terrorista.

Não demorou para que a teoria virasse prática. Participei de uma grande caminhada da Igreja que reunia dezenas de comunidades rurais para denunciar injustiças. Para as autoridades, aquilo foi um desacato. Antes do sexto mês, fui transferido para Valença. Lá, tentaram me enquadrar: o trabalho era fiscalizar crédito sob a vigilância de um agrônomo de confiança da chefia.

Mas a semente já tinha germinado. Enquanto em Pimenteiras surgia a Comissão Provisória do PT, eu mantinha comunicação constante por cartas com o grupo de São Raimundo e com o próprio Padre Sandro. Em uma dessas cartas, manifestei minha indignação com a transferência arbitrária e minha solidariedade ao seu trabalho.

O estopim final veio quando o padre, com a coragem de quem batia tijolo com o povo, leu minha missiva em plena celebração. Foi o golpe de misericórdia na paciência do governo. A repressão respondeu com uma nova tentativa de intimidação: a transferência compulsória para Flores, no Sul do estado, um lugar onde a Emater sequer tinha escritório instalado.

Eles achavam que, isolando o técnico, isolariam a ideia. Mal sabiam que, para quem tinha a benção de um padre de olaria, qualquer chão de terra servia para levantar uma nova morada para a esperança.

Adalberto Pereira, extensionista rural aposentado, guardião da Floresta Mato verde e militante da Reforma Agrária Agroecologica.


Por Marco Aurélio Siqueira