Crônica nº 4 - Jiboia de Lula e a Profecia de um Gabinete Municipal

Data da postagem: 09/03/2026

(Adalberto Pereira)

Dizem que a política é a arte de engolir sapos, mas em Guadalupe. Pi, no início dos anos 80, o cardápio era mais exótico. A cidade não era apenas um ponto no mapa do Piauí; era uma "Área de Segurança Nacional", onde o silêncio era a regra e o poder vinha por decreto, fosse escrito ou falado. Foi nesse clima de suspensão que cheguei, transferido em 1982 para trabalhar como extensionista da EMATER.PI, um "rebelde" indesejado, fui me apresentar, por norma, ao dono da cadeira principal.

O gabinete era frio, mas o clima era de deserto. O prefeito, um jovem "biônico" nomeado pela Ditadura Militar, recebeu-me com o distanciamento de quem se sentia eterno. Ele olhou para mim, buscou no teto a confirmação da minha ficha política e disparou, com um sorriso carregado de desdém:

— Você foi candidato pelo PT, não foi?

Confirmei com o queixo erguido e a coragem de quem não tinha nada a perder. O prefeito não hesitou na sentença, proferida com a autoridade de quem acha que o tempo para pôr ordem de um decreto:

— Pois é... o PT acabou.

Mal sabia ele que o tempo, esse mestre da ironia, estava apenas começando a rastejar. Dois anos depois, em 1984, a poeira de Guadalupe subiu com a chegada de um sindicalista de barba rala chamado Luiz Inácio Lula da Silva. Naquele dia, o surrealismo piauiense se manifestou: Lula recebeu de presente de um morador, conhecido como Raimundo Vela Branca, uma cobra jiboia. O episódio foi imortalizado nas páginas de Wellington Soares que o acompanhava em um Teco Teco alugado pelo PT. A imagem do bicho sendo levado para o Zoobotânico de Teresina virou folclore, mas o simbolismo era real. A jiboia, que não tem veneno, mas vence pela persistência, era o próprio retrato daquele partido que o prefeito jurava ter enterrado.

Eu, que havia sido transferido para Santa Filomena como nova represália, voltei para Guadalupe para ajudar na mobilização. Era a resistência feita de suor.

Quarenta anos se passaram. As mudanças na política brasileira são lentas, quase geológicas, e muitas vezes giram em círculos perfeitos. O prefeito daquela época, hoje um veterano de sete mandatos na Câmara Federal e figura central no estado, prepara-se agora para um novo voo rumo ao Senado. E o leitor que acompanhe o noticiário: por uma ironia que só o destino (ou a conveniência) explica, o PT — aquele mesmo cujo fim ele previu no gabinete gelado — hoje senta à sua mesa e debate o apoio à sua candidatura.

Quem conhece a história de Guadalupe saberá o nome do personagem. Para os outros, fica a lição: nunca decrete o fim de uma jiboia antes de ver o que o tempo fará com a pele dela. Ontem, o desdém; hoje, o palanque. A política partidária, afinal, é uma cobra que sempre morde o próprio rabo.

Adalberto Pereira – um dos fundadores do PT no Estado do Piauí, extensionista rural aposentado. Atualmente um guardião da Floresta Mato Verde.

Por Marco Aurélio Siqueira