Crônica nº 6: São Raimundo Nonato – O Berço e o Batismo (1977–1982)

Data da postagem: 30/03/2026

Adalberto Pereira

Minha jornada não começou no asfalto, mas no solo sagrado da sub-bacia do Rio Piauí. Em 1977, desembarquei em São Raimundo Nonato, o berço do homem americano, sob o olhar milenar da Serra da Capivara. Ali, entre as pinturas rupestres e a poeira do sertão, iniciei minha vida profissional como extensionista do Projeto Sertanejo, pela Emater. Mas, para além dos relatórios técnicos, eu carregava um sonho que não cabia em formulários: o fim de uma Ditadura que já dava seus últimos suspiros e a construção de um projeto alternativo de nação. Foi naquelas terras que a vida me deu o meu maior suporte: conheci a professora Joana, companheira de todas as horas e de todas as lutas que viriam. São Raimundo Nonato me moldou de tal forma que, embora tenham tentado me tirar dali por razões políticas, eu nunca saí de verdade. Anos depois, o destino e a generosidade do povo me concederam o título de Cidadão São-Raimundense, por iniciativa do combativo e polêmico vereador Laércio Carvalho. Em 1982, voltei para a linha de frente. O PT disputava sua primeira eleição, e eu estava lá — candidato a deputado estadual — marchando ao lado de figuras que se tornariam históricas: Félix Neres dos Santos, nosso primeiro candidato a prefeito, e seu vice, Chico do PT, além de tantos outros companheiros valorosos. Mas a disputa era profundamente desigual. A direita jogava sujo. Lembro-me de encontrar uma eleitora convicta no final da tarde do dia da eleição. Perguntei, confiante: — E aí, votou no PT? Ela, com uma serenidade que me atravessou, respondeu: — Ué, mas é hoje a eleição do PT? Me disseram que a do partido era junto com a do sindicato... Meu Deus. Era assim que funcionava a engrenagem da manipulação. Se não bastasse o regramento rígido herdado dos militares, enfrentávamos a desinformação plantada para confundir o povo mais humilde. Ali compreendi que nossa luta não era apenas por votos — era por consciência, por alfabetização política, contra séculos de coronelismo. Saí de São Raimundo Nonato com a derrota nas urnas, mas com a convicção temperada no fogo da história. Hoje, às portas de mais um processo eleitoral, essa memória não é apenas lembrança — é alerta. A democracia que conquistamos com a Constituição de 1988 não nasceu pronta, nem está garantida para sempre. Ela exige vigilância, participação e, sobretudo, memória. Porque esquecer como se manipulava o povo ontem é abrir caminho para novas formas de enganação hoje. Que 2026 não seja apenas mais uma eleição. Que seja um reencontro consciente com a história — e um compromisso renovado com o futuro.

Adalberto Pereira de Sousa - Um dos fundadores do PT no Piauí .



Por Marco Aurélio Siqueira