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Crônica nº 9: Barreiras do Piaui. – Entre Feiras, Lutas e Sementes de Resistência
Data da postagem: 18/05/2026
Cheguei a Barreiras vindo de Santa Filomena, carregando na bagagem mais do que roupas e papéis — levava inquietações, esperanças e a disposição de quem não sabia ficar parado diante das ausências. Barreiras, terra que guarda nas entranhas as nascentes do Rio Parnaíba, esse rio genuinamente nordestino que percorre cerca de 1.500 quilômetros até encontrar o Atlântico na planície litorânea da cidade que herdou seu nome. Ali, naquela paisagem marcada por história e resistência, Barreiras, conhecida carinhosamente como Barreirinha, apelido que atravessa o tempo e permanece vivo na memória e na fala do seu povo. Era o tempo do Plano Cruzado, período de promessas congeladas e incertezas aquecidas sob o governo Sarney, eleito ainda pelas engrenagens do colégio eleitoral. No meio daquele cenário, minha atuação como extensionista encontrou dois desafios que se transformariam em marcos. O primeiro era um símbolo do abandono: o Mercado Público fechado, sob a justificativa cruel da “falta de produção”. Como se o povo tivesse deixado de plantar. Como se a fome pudesse ser explicada por ausência de vontade. Reabrimos o mercado. Fizemos a feira pulsar novamente. Era mais do que comércio — era dignidade circulando. O segundo estava enterrado na memória da cidade: um poço cacimbão, no centro, outrora fonte de vida, agora esquecido. Resgatamos aquele espaço e o transformamos em unidade demonstrativa, implantando uma tecnologia social — a bomba rosário. A água voltou a subir, e com ela, uma ideia simples: o que foi abandonado pode renascer com organização e vontade coletiva. Mas não era só no campo técnico que a luta acontecia. A militância política e sindical me levou à região de Corrente, cidade polo, onde ajudamos a organizar o primeiro núcleo da categoria. Nascia ali a ATAPI — Associação dos Técnicos Agrícolas. Com salários atrasados e a dignidade em débito, tomamos uma decisão que ecoou forte: boicotamos os relatórios e ameaçamos consumir as sementes de feijão destinadas ao plantio como forma de protesto. Era um gesto extremo, mas necessário. Respondi a uma sindicância, mas conquistei algo mais importante — o respeito dos colegas, que já não aceitavam o silêncio como destino. Ainda sob os efeitos do congelamento de preços do Plano Cruzado, organizamos mobilizações pressionando comerciantes, especialmente os vendedores de carne bovina. A tensão era grande, mas a resposta veio de forma inesperada: recebi um telegrama de saudação do próprio presidente Sarney. Ironias de um tempo em que lutar pelo básico parecia subversivo. Era também o período fervilhante dos debates sobre a Constituinte. Em reuniões e rodas de conversa pela região, levávamos informação e provocação. Usávamos um velho retroprojetor, de marca americana, daqueles que carregam mais história do que tecnologia. O equipamento havia pertencido a um alfabetizador da vizinha cidade de Gilbués que me emprestou. Havia, porém, um peso naquele objeto. Seu antigo dono fora preso, acusado de propagar o comunismo — crime comum nos tempos duros da ditadura, quando ensinar a ler podia ser interpretado como ameaça. E assim, entre feiras reabertas, água resgatada do esquecimento, sementes transformadas em símbolo de luta e memórias de repressão ainda vivas, Barreiras foi mais do que um destino. Foi um capítulo intenso de um tempo em que trabalhar, resistir e organizar eram, no fundo, a mesma coisa. Fui novamente transferido, será o próximo relato crônico de uma caminhada de luta por um sonho que sempre nos guia até os dias atuais. Ditadura Nunca mais Adalberto Pereira- Extensionista Rural e um dos fundadores do PT.Adalberto Pereira
Por Marco Aurélio Siqueira