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Crônica nº 13: SONHAR E REALIZAR É UM APRENDIZADO
Data da postagem: 11/09/2026
Adalberto Pereira Esta trajetória, contada e relatada em forma de crônicas, transita pelo calendário gregoriano de trás para frente e vice-versa. Não segue uma ordem cronológica — até porque quem viveu e vive essa trajetória está sempre a questionar a ordem estabelecida. Foi assim e será sempre. Meu alimento continua pautado na utopia de um mundo de bonança e felicidade para todos e todas. Todos os relatos perpassam — e perpassaram — o exercício da profissão, assim como a militância sociopolítica. Nestes próximos relatos, continuarei neste mote, alguns com maior ênfase nos casos em que uma coisa se encontra com a outra, porque, na minha trajetória, trabalho e militância quase nunca caminharam separados. Percorridos os dez anos de trabalho e militância no campo, no interior do Estado, e mais outra década na capital — Teresina —, em 1997 decidi mudar para continuar sendo o mesmo. Parecia uma contradição, mas não era. Significava romper com o vínculo empregatício com a Emater e aceitar o desafio de sobreviver em uma nova experiência extensionista, agora por meio de uma cooperativa de técnicos: a Cootapi. A cooperativa havia sido criada em 1994, mas seu desenvolvimento seguia lento e gradual. Era uma semente lançada ao chão, ainda procurando encontrar seu caminho. Vivíamos um tempo sombrio, de muitas incertezas e desafios no mundo do trabalho. O Brasil ainda fazia a transição da ditadura para a redemocratização e, ao mesmo tempo, abria suas portas para o chamado Consenso de Washington, representado pelo avanço do neoliberalismo. Para a classe trabalhadora, isso significava, em resumo, a perda de direitos conquistados com muita luta e inscritos na Constituição de 1988. Foi nesse cenário que a inquietação nos desafiou a viver uma experiência de autogestão. Precisávamos sobreviver da renda obtida com os serviços que conseguíssemos prestar. E, para isso, era preciso conquistar o primeiro contrato, realizar o primeiro trabalho, provar que aquela ideia poderia dar certo. Não foi fácil. Praticamente um ano foi consumido em articulações, reuniões, contatos e na necessária “arrumação da casa”, até conseguirmos realizar o primeiro trabalho remunerado. Mas foi justamente dessa experiência que nasceu um dos marcos que considero mais importantes na trajetória da Cootapi: deliberamos pela remuneração igual para todos os profissionais, fossem de nível médio ou superior. Trabalho igual, realizado em equipe, remuneração igual. Viver essa contradição exigiu muita formação, muito debate e, principalmente, disposição para questionar aquilo que parecia natural e estabelecido. Ora, se nosso trabalho é realizado em equipe e o resultado somente é alcançado a partir da importância do conhecimento, da capacidade e da contribuição de cada um; se cada profissional tem seu papel e sua responsabilidade na construção do resultado coletivo; e se nossas necessidades de consumo não são diferentes simplesmente porque um tem nível médio e outro nível superior, nada mais justo do que buscarmos uma remuneração igual. Era uma experiência. Era uma aposta. Talvez, para muitos, uma utopia. Mas foi realizando sonhos utópicos que fomos construindo uma realidade possível. A cooperativa cresceu, enfrentou crises, aprendeu com os erros, atravessou diferentes momentos políticos e econômicos e, em 2024, completou 30 anos de existência. Trinta anos depois, aquela semente continua viva. A Cootapi continua lutando pelo fortalecimento da Agricultura Familiar e da Agroecologia, reafirmando, na prática, que sonhar não é apenas imaginar um mundo diferente. Sonhar também é aprender a construir, coletivamente, os caminhos para realizá-lo.Adalberto Pereira de Sousa – Extensionista Rural e um dos fundadores do PT.
Por Marco Aurélio Siqueira